Nina Horta

 

 

Vai passar o filme ou está passando. Precisamos conversar sobre Kevin. De Lionel Shriver.O filme deve ser bom.

            Tenho que ter alguém para conversar sobre livros, acho que perdi um parafuso, não gosto mais dos livros como gostava antigamente.

            Esse, por exemplo. O do Kevin.  Não é novo, já deve ter uns três anos. Voltou à baila por causa do filme. Fui ler para me distrair, estava já cansada de tanta Índia, (mas volto), e daí a toda folga que tinha pegava o thriller, afinal é um livro de horror, na minha concepção, uma história que afirma que o MAL existe, que é REAl.

            Mas, quem sabe me contar porque me desaponto com os livros? Não acho mais um livro que me emocione. Os novos podem até  me divertir fazer passar o tempo. Divertem? Nem isso, quero acabar logo para ver se acho outro que me deixe contente.

O Kevin, por exemplo, é um livro inteligente. Tem um enredo inteligente. Tem sacadas inteligentes. Desperta o seu interesse.

            O que alguém quer mais? Não sei. Uma fumaça, uma alma, menos inteligência e craft, talvez.

            O que aconteceu com Uma passagem para a Índia?. A cidade e as Serras, Mme Bovary, aquele antigão do Shakespeare, o poemas da Dickinson, até o Apanhador?  Será que mudei eu, mudaram os livros? Faulkner, nossa senhora, Faulkner. E mesmo uma escritora de contos como se chama mesmo aquela doida do sul dos Estados Unidos, Flannery O´Connor? O leitor fica intrigado, não só encantado, quer ler mais, descobrir o que não entendeu, deixar o livro na cabeceira. É isso, o livro tem que se poder ajeitar na cabeceira, senão qual a graça? Lê e joga pela janela?  E as cartas de Virginia Woolf e No farol? E Euclides da Cunha? E o Padre Vieira?

            Não quero mais ler esses livros. Chega, no fim da vida quero os clássicos, não tem jeito, ler e reler Proust e Kafka, queria que não fosse assim, odeio livros que dão a idéia de status, que são difíceis de ler, que têm fama de serem difíceis, mas fazer o quê?

Escrito por Nina Horta às 16h27

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Mateen quer dizer 'wonderful evening'

Em New York, telefonei para a empresa Tel-Avis pedindo um carro. "Qualquer coisa, menos uma limousine", pedi. E qualquer coisa foi o que veio. Um carro com três portas. A quarta, enguiçada para sempre. O motorista era o Peter Sellers disfarçado de indiano. Pele mate, sorriso simplório-pestanudo, "cool", até onde pode ser um chauffeur nova-iorquino.
Sabia onde encontrar facas para cortar tomates maduros e prensas para fazer tortillas. E o que não sabia, aprendia logo com as Páginas Amarelas e um orelhão. O seu inglês era ótimo, mas sobravam-lhe as letras "v", que além de serem espalhadas ao léu, substituiam os "w". "Vud you vant a cup of tea?" Fomos nos entendendo tão bem que ele me convidou para uma "vauthentic vindian meal", uma autêntica refeição indiana, com sua família. Infelizmente não foi possível, mas Mateen, o nome dele era Mateen, não desanimou.
Finíssimo de modos e de alma pediu a honra de me mostrar um naco da India em Nova Iorque, num almoço rápido. "Very real thing. Vonly Indians." E era mesmo. Um bandejão ou "vast vood" numa esquina da Lexington, com mulheres de sari e pinta na testa. Fui instalada na mesa de fórmica número dois, no Shaheen Restaurant, e ele, com ares de nababo foi conferenciar com a dona do negócio.
Logo depois chegaram os pães, ainda estufados (chapatis) e pakoras de legumes, fritas na hora. A um sinal da mulher, ele me deu precedência no caminho das bandejas. Arranjei-me com um curry de galinha e um ensopado de grão de bico (dal), enquanto ele se serviu de uma exagerada porção de cabrito.
Comia, balançando a cabeça, triste. –"Vit is not vi same thing.! Vat home is much better!".
Acreditei. Acabada a refeição, pagou US$ 12, escondendo a conta com a mão em concha, e –com todo respeito– quis que eu conhecesse a casa ao lado: Kalustyan's.
Parecia uma caixa de especiarias pegando fogo. Cheiro de garam masala (que preparam lá mesmo), amêndoas e nozes assadas, amendoins, sementes de melão persa, mostarda preta, lentilhas de todas as cores, chutneys de manga verde, folhas de betel para mascar, ouro em folha para grudar na comida de festa. De enlouquecer. Fui para o carro carregada de pacotes, já pensando na alfândega. Claro que errei de porta. A cara de mágoa de Mateen, a cada vez que eu parava em frente da porta quebrada, era um estudo de humildade ofendida.
O indiano mais simpático de Nova York, aprontou uma última surpresa. Pediu licença, demorou um pouquinho e voltou do Kalustian's com uma toalha de papel que estendeu no banco de trás. Pôs em cima uma bandeja de doces –"I vant to introduce vyou to our sveets". "Quem come estes doces se converte a eles. Viciam", disse ainda. Meu Deus! Fiz como ele mandou. Dei uma mordida em cada um e mastiguei bem, com os olhos fechados, saboreando. Eram incrivelmente doces como calda de melado, ou azedos como tamarindos, ou doces e azedos ao mesmo tempo. Tinham gosto de tudo, India, Turquia, Brasil.
"Thank vyou, Mateen, for such a vonderful Indian party". Relendo o que escrevi, parece que estou rindo de Mateen. Nunca. Era um gentleman de verdade.

 

SERVIÇO: Arif Mateen - P.O. Box 300-588, Brooklyn NY, 11230 New York USA, Telefone 718-645-3060. Kalustyan's - 123, Lexington avenue. Shaheen Restaurant - 99, Lexington avenue.
A loja Kalustyan ainda está lá. O endereço do táxi do Mateen não é o mesmo. Se você liga e insiste eles respondem zangados"mas, todos os motoristas de carro em NY se chamam Mateen! Como é que vou achar um pestanudo no meio deles?" Quem sabe qualquer Mateen é um gentleman indiano? Arrisque.

Escrito por Nina Horta às 18h21

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Uma Receita de Curry

Afinal ninguém é de ferro. Já vimos com quantos paus se faz uma canoa. Agora uma receita. Receita é coisa boba, a gente precisa ter uma idéia da coisa a ser feita, uma boa idéia, depois a responsabilidade é nossa. No bairro da Liberdade, em São Paulo, podemos comprar qualquer curry pronto, em pasta. Gosto muito dos tailandeses, e a eles podemos acrescentar qualquer gosto que seja nosso. Cheire, olhe, cheire de novo e tome coragem. Afinal, o que é o curry? Um ensopadinho, como fazemos às centenas, só que com um tempero muito mais complexo. Que pode ser inventado por você. Como às vezes, não temos algumas coisas básicas, podemos comprar o curry para facilitar  a vida.

No outro dia, na TV, vi a Nigella Lawson fazendo um curry. Ela adore esse tipo de comida. Quase todo inglês gosta. E vocês não imaginam a quantidade de anís estrelado que ela colocou. Um dia vou experimentar, mas tenho a impressão de que não seria o meu tempero preferido.

Corte e prepare todos os ingredientes antes de começar a cozinhar. Na comida indiana é bem importante para você não se confundir na hora, com tantos temperinhos.

Os curries de frango e carne ficam até mais gostosos se feitos um dia antes, mas o de peixe, não, perde um pouco da textura.

Se você está com pressa e não tem tempo de fazer tudo do comecinho, sem ter que descascar, pelar, amassar, compre as coisas já prontas, como tomates em lata, leite de coco em vidros. Cebola frita você pode congelar um montão e na hora usar um pouco.

Muitas cozinheiras indianas fazem como nós e já guardam o sal e o alho amassado dentro de um vidro na geladeira. Temos de pensar também nos dias de hoje, onde não há aquele indiano descalço e de turbante só para lidar com temperos. Se quiser fantasiar o marido ou namorado,  mas acho que dá mais certo você se fantasiar. Afinal é fácil, uma canga e um turbante.

Comecemos com o curry mais caseiro possível.

Curry para 2 pessoas

Curry de frango

450 g de frango ou

2 peitos de frango ou

4 coxas ou 6 coxinhas.

Curry de cordeiro

300 g de cordeiro

curry de peixe

2 postas de robalo ou dois pedaços de salmão - 230 g

Curry de vegetais

230 g do legume escolhido.

O molho de curry

4 colheres de óleo

1 cebola grande, picadinha

2 dentes de alho, picados

1  cm de gengibre picado

3/4 de colher de chá de coentro em pó.

uma pitada de curcuma

1/2 colher de chá de curry destes comprados no supermercado, em pó.

1 colher de chá de páprica em pó.

2 tomates picados

sal

Folhas de coentro picadas para enfeitar.

1-Aqueça o óleo numa frigideira ou panela grossa. Junte as cebolas e salteie sobre fogo médio por cerca de 20 ou 30 minutos ou até que fique bem marrom. Junte o alho e o gengibre e frite por 1 min. Junte o coentro em pó e mexa mais um pouco. Junte a curcuma, o cominho, o caril comprado, a paprica e frite por 30 segundos. Junte 1 copo de água e cozinhe por 10 minutos. Junte o tomate , mexa bem e cozinhe por mais 10 minutos.

2- O molho está pronto. Sal a gosto. Junte a carne ou o peixe ou os ingredientes que vai usar. Duas xícaras de água. Cozinhe até que fique macio. Ponha por cima as folhas de coentro na hora de servir.

Coma com arroz ou pão pita ou qualquer pão.

É o que eles dizem. No outro dia fiz um curry com um camarão fresquíssimo, coisa de 10 minutos e estava pronto, coloquei leite de coco para engrossar, umas 2 colheres de creme de leite, e lá eu tinha arroz ou pão pita, ou qualquer pão? Adivinhem, fiz anos, ganhei farinhas maravilhosas, coloquei ao lado, e nada melhor que curry com farinha. Os indianos vão adorar, juro.

 E podem enlouquecer, por favor. Estamos falando em comida de pobre, e tem coisa que temos mais jeito do que fazer comida de pobre? Quiabos ao curry com arroz, jaca verde tratada como carne ao curry. Um acompanhamento doce ao lado, bananas picadas, iogurte para a boca não queimar com a quantidade de pimenta. Idéias, idéias. Algumas podem dar errado daí não repetimos. Mas se o prato de todos ficar vazio mais uma receita no céu azul do firmamento.

Agora vou procurar umas crônicas que já escrevi sobre a India, e aqui fica um lugarzinho de consulta. E lembrem-se, estou sempre aqui para uma consulta básica. Se não souber pergunto à Meeta Ravindra. ninahorta@uol.com.br

Escrito por Nina Horta às 15h11

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Ainda a India

Os curries de Cammelia Panjabi

 

Nos anos 80 Camellia era a cozinheira indiana mais badalada da Inglaterra. Tem um livro “50 great curries of England”.

A definição dela do que é um curry. A origem da palavra curry parece ser a de que é um prato de carne ou legumes a ser comido com arroz, e considerado o prato principal de uma refeição.

 

Para fazer um curry.

Comece escolhendo a panela com uma superfície não reagente. A maioria dos curries tem um ingrediente ácido e se usar cobre ou latão, o fundo precisa ser forrado com lata. Aço inoxidável é melhor do que outros materiais, mas tem que ser panela grossa para não pegar no fundo.

Todos os curries têm um ingrediente principal, como carne, ave, peixe, ovos, ou um legume só, como batatas ou berinjelas, cogumelos ou uma mistura  de vegetais como ervilhas, cenouras picadas, vagens, couve-flor.  

A maioria dos curries começa ao se aquecer a gordura a ser usada. Tradicionalmente os indianos preferem manteiga clarificada. Pode usar o óleo que quiser.

 

A base do molho, se não for vegetariana é sempre um caldo de uma carne qualquer.

Há sempre um agente engrossador para dar consistência ao caldo que pode ser: cebolas, leite de coco, iogurte, sementes moídas ou frutas secas. Não se usa farinha de trigo. (Os ingleses usam, a maioria das receitas deles, de curry leva um pouco de farinha de trigo para engrossar).

 

Fruta secas e sementes – Amêndoas moídas, castanhas de caju e amendoim às vezes são usadas nos curries, não só para engrossar mas para dar sabor.

Amendoins

Sementes brancas de papoulas

Sementes de mostarda

Sementes de melão e de abóbora

Sementes de gergelim

Para dar cor ao curry:

Curcuma- amarelo brilhante

Açafrão - damasco pálido

Pimentas vermelhas - Marrom avermelhado

Folhas frescas de coentro em quantidade -  verde

Tomates vermelhos: rosados se combinados com iogurte e vermelho por si próprios

Cebolas marron profundo se usadas em quantidade e marron se usadas normalmente

Pó de coentro - marrom escuro se tostado de 5 a 6 minutos

Garam masala-pó- o pó comprado como curry nos supermercados -   marron

Escrito por Nina Horta às 01h13

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Nina Horta Nina Horta é empresária, escritora e colunista de gastronomia da Folha há 25 anos


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